alta noite nos altos nos céus
o luar coberto de véus
de nuvens muito escuras
vê-se na vasta noite
quem são aquelas criaturas
que se lamentam e vagam
pelos esconsos da Terra?
que choram e soluçam
perdidas na escuridão
estes desgraçados mortos
feito espectros, quem são?
são os caídos filhos de Caim
arremessados neste desvão!
é a turba que purga no vale
da sombra no desterro sem fim
é quando de repente troando
nas alturas ouve-se uma voz
doce como uma harpa
estridente como um canhão
no alto de uma escarpa
mas que voz é esta
gritando na amplidão?
é a voz do poeta
clamando a multidão!
e o que pede o poeta
aos gritos, então?
que ergamos as cabeças
que levantemos do chão!
que cantemos a lira
na clave do coração!
que façamos uma pira
para iluminar a escuridão!
não sabe a populaça
que sua maior desgraça
é a falta de união?
o povo em uníssono
responde “não!”
e ao ouvir tal resposta
explode no universo um trovão!
e ouve o poeta que detrás
dele do nada gargalha Satanás
praguejando num silvo grita
“Jamais!”
e prossegue o poeta:
ah, o povo na praça
de mãos dadas à esperança
é a força da populaça!
a sanha dos tiranos
será varrida pelos anos!
e o povo se ergue na ágora
e em voz alta lhe indaga:
e o que faremos agora
pois não temos adaga?
e o poeta de novo brada:
acendei uma fogueira
que queime noite afora!
acendei a tocha e a pira
oh, preparai a aurora!
o amor é a arma do povo!
e o que mais clama o poeta
que a multidão de si desperta
para ouvir o seu clamor?
que o povo cante na Terra
o estribilho da quimera
oh, não deixeis a praça deserta
porque a praça é do povo
como o céu é do condor
e a multidão de si desperta
pergunta então ao poeta:
“E o que vence o terror?”
e responde-lhe o poeta
com seu brado de condor:
só vence o terror a legião do amor!
e o que mais clama o aedo?
há que vencer a legião do medo!
e se Deus pudesse nos falar
o que então ele nos diria?
a arma do povo é a alegria!
que diria ele a esta criança?
a arma do povo é a esperança!
e o que mais clama ele de pé?
a arma do povo é a fé!
o que mais clama o poeta
afiado feito uma seta?
liberdade igualdade fraternidade!
de repente ao seu lado
ao clarão da lua
surge Têmis, a deusa grega
da justiça, nua!
mas agora desperta
se arrepia a populaça
que antes jazia em sua
própria desgraça
que antes dormia
e agora prepara-se para
sem espada nem brasão
combater abnegada o revés
mas oh que nobre visão
vai ela agora, a multidão
na carruagem de seus pés!
pelas ruas pelos campos
nestas noites de prantos
onde a história é pálida
é fria é morta é esquálida
resta apenas à populaça
abraçar-se com bondade
na vasta praça da piedade
acender uma chama na noite
a isto chamamos revolução!
construir a vida o século
tendo na boca um ósculo
tendo nos lábios a canção
e prossegue o poeta:
guardai da morte
o fogo sagrado da vida!
ide, ide e pregai o sol
como uma verdade!
ide, ide e pregai a lira
como evangelho!
pregai a Natureza
como um espelho!

noite alta nos altos céus
o luar agora despido está nu
e agora brilha claro
no anfiteatro da noite azul.
e ao ouvir seu clamor ao vento
tal qual rasga o casco a espuma
a noite se converte em bruma!
é o poeta que desarma o tempo
com o condão de seu gênio
e com seu dedo de hidrogênio
cintilante no escuro
aponta para o futuro!

e que voz foi esta
gritando na amplidão?
foi a voz do poeta
despertando a multidão!
e o povo que antes era escravo
agora renasce bravo!
e o povo que antes era tristão
renasce impávido como um titão!
e indaga cheio de graça e gratidão:
quem foi este arcanjo
tocando a harpa dos anjos
que nos tocou a alma e o coração?
quem foi este arauto do Verbo
que acaba de nos dizer adeus?
foi o poeta que desceu dos altos céus
trazendo uma mensagem de Deus!

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