eu creio nos homens
quando conversam com nuvens
e se alimentam de frutos lúdicos
comem algodão-doce e se convertem em crianças
nas rodas-gigantes nos carrosséis
nas gangorras e escorregadeiras
quando descobrem outros reinos paisagens
e quando dançam e criam luas necessárias
quando abraçam os esplendores
e abrem janelas amarelas de venturas

eu creio nos homens
que conversam com os bichos e com o nada
e remendam suas almas com linhas e borboletas
trabalham o por vir como um pintor sua pintura
voam em balanços e alimentam seus filhos
dedilham o vento declinam estrelas
e namoram a metafísica

eu creio nos homens
que acreditam nos homens
acreditam nos milagres e nos peixes
tocam riachos com mãos e pés nus
fazem serenatas em noites imaculadas
e observam longos ocasos com olhos repletos de infinitos

eu creio nos homens
que escrevem cartas desesperadamente apaixonadas
plantam flores e cultivam amigos
caminham pelos campos de figos
com pés de primavera e ouvidos de flores

eu creio nos homens
quando desafiam as escuridões as incertezas
quando suas bocas insistem nos vocabulários
proibidos da concórdia e da beleza
e se comovem com a brancura das espumas flutuantes

eu creio nos homens
que acreditam na profunda ternura
dos cavalos-marinhos e das camélias
estudam ruínas e inventam desconhecidos azuis
que partem em navios solitários rumo a outros portos
despertam para Atenas e Éfeso e Roma
para as romãs róseas lacrimejadas pela melancólica chuva

eu creio eu creio eu creio
eu creio nos homens que laboram pelo
grande crepúsculo da vida!

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